Cultura Caiçara

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Fazendo parte das culturas litorâneas brasileiras, os caiçaras representam um forte elo entre o homem e seus recursos naturais, gerando um raro exemplo de comunidade harmônica com o seu ambiente. Cotidianamente, turistas e aventureiros que buscam o litoral Sudeste como abrigo para as suas férias, travam contato, sem saber, com uma das mais belas e antigas culturas brasileiras. Como uma das poucas culturas relativamente preservadas na região mais povoada do Brasil (entre Rio e São Paulo), os caiçaras são objeto de estudo de vários Centros de Pesquisa do sudeste. Apresentamos um pequeno panorama desta cultura que viveu quase um século em parcial isolamento e hoje passa a travar contatos, cada vez maiores, com o universo urbano.

ORIGEM DOS CAIÇARAS

No Brasil, há inúmeras nações indígenas. No entanto, no ato da colonização, os índios foram gradativamente sendo exterminados de nosso litoral, deixando heranças que ainda hoje se perpetuam. Os caiçaras são um exemplo vivo desta combinação índio/colono, terra/mar - que se estabeleceram nos costões rochosos, restingas, mangues e encostas da Mata Atlântica. A palavra caa-içara é de origem tupi-guarani. Separadas, as duas palavras sugerem uma definição: caa significa galhos, paus, "mato", enquanto que içara significa armadilha. A idéia provinda desta junção seria, à primeira vista, uma armadilha de galhos. O termo, porém, denomina as comunidades de pescadores tradicionais dos Estados de São Paulo e Paraná e sul do Rio de Janeiro.

Com poucos contatos com o "mundo de fora", os caiçaras evoluíram aproveitando os recursos naturais à sua volta, que resultou numa grande intimidade com o ambiente. Povo anfíbio, entre o mar e a floresta, estas pequenas comunidades tentam, ainda hoje, preservar seus valores de grupo. Seus territórios - praias e enseadas - são de difícil acesso, por vezes protegido por Unidades de Conservação. Atualmente estas terras são alvo da especulação imobiliária, devido à sua beleza e excelente estado de conservação.

PESCA

Os pequenos e médios barcos a motor vieram fazer parte desta cultura nos meados da década de 60. Antes deste período, a agricultura era a atividade primária. O homem caiçara passou de lavrador para pescador e, hoje, podemos dizer que a pesca é a principal atividade do homem caiçara. O aparelhamento e as embarcações sobreviveram de processos indígenas, ao passo que, na captura, predominam os elementos da cultura portuguesa. A poita, indígena, é nada mais do que uma âncora primitiva, empregada para canoas e redes. É dela que provêm expressões comuns dos caiçaras como: canoa poitada, poitado na cama, saiu da poita etc. O termo em tupi significa parar ou estar firme. Também é possível identificar heranças na pesca provindas da imigração japonesa, como é o caso do cerco.

Os aparelhos de pesca são divididos em três grupos:

1) destinados a ferrar o peixe (arpão, fisga, anzol, espinhel);

2) as redes de emalhar e as de envolver e

3) armadilhas, fixas ou flutuantes.

Com estes, o homem caiçara pesca no "mar de dentro" para sua subsistência. O arrasto da tainha merece atenção especial, pois se trata de um momento de congregação da comunidade, onde todos trabalham para todos. Com uma rica noção de pesca adquirida ao longo do tempo, os caiçaras começaram a trabalhar em barcos pesqueiros há cerca de 30 anos. Hoje, a maioria dos homens adultos são empregados em grandes barcos de sardinha, levando-os a pescar no "mar de fora", desde Cabo Frio até a divisa com o Uruguai. Recebem porcentagens da pesca de acordo com sua especialidade e, em épocas de proibição da pesca ("defeso"), desembarcam de volta aos seus lares.

AGRICULTURA

O sistema de cultivo utilizado pelos caiçaras tem marcada influência indígena. Comumente chamada de coivara ou roça de toco, esta técnica itinerante consiste, basicamente, na derrubada e queima da mata para utilizar o terreno para cultivo, seguindo-se um período de pousio, isto é, um "descanso" da terra. Observam-se elementos da cultura indígena tanto no manejo do ambiente como nos produtos, já processados, da roça. A agricultura caiçara serve como complemento alimentar dos pescadores e seu principal produto é a farinha de mandioca - consumida em quase todas as refeições - que desde os tempos imemoriais se trata de um substituto do pão europeu e, por isso mesmo, chamada de "pão dos trópicos". Existe, ainda, uma infinidade de produtos secundários e ervas medicinais. Seus principais produtos são: mandioca, milho, cana, feijão, guandu, inhame, entre outros. Ao contrário do que possa parecer, a roça caiçara não se trata de uma agricultura "primitiva", mas uma tecnologia aprimorada que se desenvolveu frente às condições tropicais. Pesquisas recentes indicam ser esta forma de cultivo um sistema agrícola auto-sustentável. No entanto, a agricultura vem perdendo espaço e interesse dentro das comunidades, por causa da perda da noção do poder aquisitivo que acarreta na compra de alimentos nas cidades mais próximas.

A extração de madeira para diversos fins como lenha, construção de canoas e casas etc., esbarra muitas vezes em proibição das leis que regem algumas Unidades de Conservação. Os caiçaras ficam assim limitados em seu próprio território. No entanto, uma das interessantes extrações é verificada na Comunidade do Aventureiro (Ilha Grande - RJ) onde os caiçaras retiram a casca do cobi (Anadenanthera colubrina) e a levam ao fogo para retirar sua resina. Esta é aplicada nas redes de pesca com a finalidade de fortalecer a malha, ficando com uma tonalidade vermelha. Plantas são também usadas para uma grande variedade de propósitos, como alimento, medicina, construção, entre outros. O conhecimento dos caiçaras sobre ervas medicinais é bastante vasto, sendo objeto de inúmeras pesquisas. Este etnoconhecimento se traduz desde plantas tradicionalmente usadas na medicina popular, até usos medicinais de certas espécies de peixes. Esse intenso uso demonstra a forte interação homem/ambiente mantida numa cultura extremamente próxima às maiores cidades brasileiras.

O POVO

Existem duas principais relações de trabalho nestas comunidades: a pesca, que agrega toda a comunidade e a agricultura, cujos limites são exclusivamente familiares. Ademais, ainda combinam atividades de coleta, extrativismo e artesanato. A associação do peixe com a farinha de mandioca é um dos aspectos mais gerais da dieta deste povo, que se vê hoje dividido entre a necessidade de dinheiro expressa pela intensa relação com a cultura urbana e o receio de perder sua identidade de grupo de pescadores artesanais situados em áreas preservadas. Os caiçaras são, originalmente, um povo de religião católica, herança esta gerada pelo colono português. Há várias festas relacionadas ao catolicismo, porém a mais famosa acontece no mês de maio em homenagem à Cruz (Santa Cruz). É necessário que se realize no "claro", isto é, na lua cheia, para que todos possam comparecer. A cada ano é escolhido o festeiro - figura central na organização da festa - que, por sua vez, escolhe outros responsáveis. Durante três dias, a comunidade estará ocupada na realização da Festa de Santa Cruz.

O primeiro evento da festa é a ladainha na igreja na sexta. Já no sábado, os convidados chegam e se iniciam os batizados e mais ladainha. O último dia é mais intenso, com uma "missa festiva" com o padre mais próximo e finalmente a procissão. Andores, bastante decorados, recebem imagens de santos enquanto rezas e músicas são entoadas ao longo da extensão da praia percorrida. Após a procissão, é comum a realização de um leilão que arrecadará fundos para a festa do próximo ano. Atualmente várias comunidades caiçaras fazem parte de Igrejas Pentecostais e Associações, dado o forte grau de contato das últimas décadas. Igrejas da Assembléia do Reino de Deus e Congregação de Cristo estão se tornando comuns e se espalhando rapidamente, o que faz com que o Catolicismo tradicional, suas festas e rituais vão se tornando cada vez mais raros e, também, são responsáveis por alguns conflitos entre comunidades.

Autores: Daniel Toffoli e Gustavo Mansur

(conteúdo acima retirado do site: http://www.muscai.com.br/caicaras/index.html)

A DANÇA DA FITA EM UBATUBA

O Élvio Damásio e o Mário Gato foram os convidados do Projeto Nossa Cara: Juventude Caiaçara para falar um pouco da cultura caiçara. E o Élvio nos trouxe uma história muito interessante sobre como chegou a dança da fita aqui em Ubatuba. Esta dança é originariamente da região do Tirol, Áustria e chegou ao Brasil junto aos imigrantes que aportaram em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A dança 'subiu' pelo litoral aportando em nossas terras por conta do escambo e comércio de produtos e cultura que acontecia no porto de Santos, lá pelos idos dos anos 40 do século passado. Os caiçaras enchiam suas canoas de café, peixe seco, esteiras de taboa, pinga e outros produtos daqui. Lá em Santos os comerciantes traziam objetos e alimentos que não tinham aqui, como tecidos, sal, querosene para lampião, fifó, sabão e anil. Mas também traziam histórias, amores e outras culturas que presenciavam no Porto de Santo, que funcionava como uma grande plataforma de intercâmbio cultural. Foi João Vitório, da Enseada que viu os homens do sul do país dançarem a Dança da Fita e interessado resolveu trazer a prática para cá, em 1940. Inicialmente a dança era feita durante o Carnaval e com o tempo os moradores do Itaguá também criaram seu grupo.

Muitos não sabem, mas a dança faz toda uma analogia com os ciclos da natureza. O mastro onde as fitas estão amarradas simboliza o tronco de uma árvore e toda a dança faz uma representação desde o o momento de preparação do terreno. Quando as fitas se encontram é quando as sementes são escolhidas. As tranças simbolizam as raízes crescendo. Quando as fitas estão todas enroladas é que a árvore esta pronta e quando desenrola é que os frutos estão prontos e depois ela descansa... (texto: Gisella Hiche)

Rede Agroecológica Caiçara

A forma de cultivo tradicional dos caiçaras aliada a outras técnicas propostas pela agroecologia tem dado muito certo aqui em Ubatuba, garantindo que pelo menos uma parte do consumo dos habitantes de Ubatuba seja livre de agrotóxicos e repeite os ciclos da natureza. Uma iniciativa que vai nessa linha é a Rede Agroecológica Caiçara. Conheça mais da sua história no link abaixo:

http://cirandas.net/rede-agroecologica- caicara

Matos de comer da Mata Atlântica

Você já observou alguma vez o mato do seu quintal ou da sua rua? Sabia que ele pode ser uma planta alimentícia de alto poder nutricional e medicinal?  Segundo pesquisa da UFRGS, no mundo existem catalogadas cerca de 50 mil plantas desse tipo, a maioria completamente desconhecida do público devido o seu baixo valor comercial. São as chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). O estudo lista 10 mil espécies só no Brasil, muitas delas convivendo em nosso bioma, a Mata Atlântica. Elisabeth Meireles Mourão, produtora familiar de Ubatuba, é profunda conhecedora dessas plantinhas. Ela esteve na última semana apresentando um pouco desse universo para o público do Festival da Mata Atlântica e está todos os sábados na feira da praça BIP oferecendo diversas espécies que cultiva em seu sítio, no Taquaral.

Quer saber mais sobre a oficina ministrada por dona Elisabeth? Acesse aqui:

http://www.informarubatuba.com/#!panc-- -plantas/csel

Você também pode conhecer mais sobre o universo das PANCs acessando o "Manual de Hortaliças

Não-Convencionais", do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento nesse link:

http://www.agricultura.gov.br/…/manual%20hortali%C3%A7as_WE…

E o estudo da UFRGS http://www.ufrgs.br/…/Cartilha%20Biodiversidade%20pela%20Bo…

(por: Carolina Lopes)

Defeso Cultural

Defeso Cultural foi um movimento lançado por caiçaras da região, como por exemplo o músico, Luiz Perequê, nascido em Paraty. O Defeso Cultural é um movimento da sociedade civil em defesa, apoio e fortalecimento da cultura popular caiçara, tanto em suas manifestações tradicionais, como contemporâneas. Acompanhe as movimentações desse movimento pelo Facebook:

https://www.facebook.com/defesocultural/timeline

Referências bibliográficas sobre os caiçaras

Abaixo, algumas publicações sobre os caiçaras selecionadas pelos autores:

· ADAMS, C. Caiçaras na Mata Atlântica: pesquisa científica versus planejamento e gestão ambiental. Dissertação de Mestrado. Pós-Graduação em Ciência Ambiental, USP, São Paulo.

· BEGOSSI, A. 1989. Food Diversity and Choice, and Technology in a Brazilian Fishing Community. PhD Dissertation, University of California, Davis, USA (UMI # 8919534).

· BEGOSSI, A. 1995. Cultural and Ecological Resilience among Caiçaras of the Atlantic Forest Coast and Caboclos of the Amazon (Brazil). (no prelo) In: Linking Social and Ecological Systems for Resilience and Sustainbility. F. Barkes & C. Folke (eds.). The Beijer International Institute of Ecological Economics.

· BORN, G. C. C., O. A. FÁVERO & S. PAVAN. 1994. Traditional Communities and Protected Areas: study case of the Ecological Station of Juréia-Itatins, Atlantic Rainforest, São Paulo, Brazil. In: IV International Congress on Ethnobiology, nov. pp. 17-21, Lucknow, India.

· BRITO, M. C. W. de. 1995. Unidades de Conservação: intenções e resultados. Dissertação de Mestrado, PROCAM-USP, São Paulo.

· CANELADA, G. V. M. & P. JOVCHELEVICH. 1992. Manejo Agroflorestal das Populações Tradicionais da Estação Ecológica Juréia-Itatins. In: 2º Congresso Nacional sobre Essências Nativas, 29 Mar. - 3 Abr., São Paulo. pp. 913-919. Anais Rev. Inst. Flor., São Paulo, v. 4 mar. 1992.

· DELAMONICA P. 1997. Florística e estrutura de floresta atlântica secundária - Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul, Ilha Grande, RJ. M. Sc. Thesis, Universidade de São Paulo. 113 p.

· DIEGUES, A. C. 1988. Diversidade Biológica e Culturas Tradicionais Litorâneas: O Caso das Comunidades Caiçaras. NUPAUB, Universidade de São Paulo.

· DIEGUES, A. C. 1994. O Nosso Lugar virou Parque. NUAPUB, Universidade de São Paulo. 187p.

· FRANÇA, A. 1954. A Ilha de São Sebastião. Estudo de Geografia Humana. USP/FFCL, Boletim nº 178, Geografia nº 10, São Paulo. 196 p.

· MARCÍLIO, M. L. 1986. Caiçara: Terra e População. Estudo de Demografia Histórica e da História Social de Ubatuba. Edições Paulinas - CEDHAL, São Paulo. 246 p.

· MILANELO, M. 1992. Comunidades Tradicionais do Parque Estadual da Ilha do Cardoso e a Ameaça do Turismo Emergente. In: 2º Congresso Nacional sobre Essências Nativas, 29 Mar. - 3 Abr., São Paulo. pp. 1109-1111. Anais Rev. Inst. Flor., São Paulo, v. 4 mar. 1992.

· MOURÃO, F. 1988. Pescadores do Litoral Sul do Estado de São Paulo. Ciências Sociais e o Mar no Brasil: Coletânea do II Encontro, NUPAUB-USP, São Paulo, Série Documentos e Relatórios de Pesquisa. pp. 76-78.

· MUSSOLINI, G. 1980. Ensaios de Antropologia Indígena e Caiçara. Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro. 289 p.

· OLIVEIRA, R. R., D. F. LIMA, P. DELAMONICA, D. D. G. TOFFOLI & R. F. SILVA. 1994. Roça Caiçara: um sistema "primitivo" auto-sustentável. Ciência Hoje 18 (104): pp. 44-51.

· OLIVEIRA, R. R. 1996. O Rastro do Homem na Floresta: A construção da paisagem da Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul a partir de intervenções antrópicas. Albertoa 4 (10): pp. 109- 116.

· ROSSATO, S.C. 1996. Utilização de Plantas por Populações do Litoral Norte do Estado de São Paulo. Dissertação de Mestrado, Instituto de Biociências - USP, São Paulo.

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· TOFFOLI, D. D. G. 1996. Aspectos Agroecológicos de uma Roça Caiçara. In: I Simpósio de Etnobiologia e Etnoecologia, Feira de Santana, BA. Resumos. março 1996. 82 p.

· TOFFOLI, D. D. G. 1996. Roça Caiçara: uma abordagem etnoecológica de um sistema agrícola de herança indígena. Monografia - Bacharelado em Geografia e Meio Ambiente - Pontifícia Universidade Católica/PUC-Rio. Departamento de Geografia e História. 76 p.

· TOFFOLI, D. D. G. & OLIVEIRA, R. R. 1997. Caiçara Agroforestry Management. (no prelo) Volume "Human Values of Biodiversity", UNEP. Cambridge University Press.

· VIANNA, L. P. 1996. Considerações Críticas Sobre a Construção da Idéia de Populações Tradicionais no Contexto das Unidades de Conservação. Dissertação de Mestrado em Antropologia, FFLCH-USP, São Paulo.

· VIANNA, L. P. 1992. Vila de Picinguaba: o caso de uma comunidade caiçara no interior de uma área protegida. In: 2º Congresso Nacional sobre Essências Nativas, 29 Mar. - 3 Abr., São Paulo. pp.1067-1073. Anais Rev. Inst. Flor., São Paulo, v. 4 mar. 1992.